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Meio Tecnico-Cientifico-Informacional
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Meio: os qualificadores apostos por Milton Santos

Técnico-Científico-Informacional

A análise e a síntese, assim como as operações de dissolução e de coagulação, solve et coagula, devem se acompanhar, como já indicava o pensamento alquímico. Seguindo estes passos, identificamos os ingredientes do meio técnico-científico-informacional, e nos propomos agora a reuni-los de novo, coagulando-os segundo uma perspectiva diferente, mais afim com a crescente emergência de diferentes tipos de Sistemas de Informação, como o SIG.

É interessante, neste sentido, acompanhar o pensamento de Pierre Lévy (1995), quando propõe uma espécie de ciclo de evolução do que chama “saber coletivo”; algo que definitivamente ocupa e reorganiza o espaço e o tempo da humanidade, ao longo de sua constituição. Ao mesmo tempo que sua visão se cerca de um certo utopismo, bastante comum entre os entusiastas da Era da Informação, Lévy deixa, no entanto, em alguns momentos, transparecer as anomias que se revelam neste processo, e, por conseguinte, os riscos associados a cada bifurcação desta trajetória.

Para começar, Lévy define o que denomina “espaço antropológico”, de forma análoga à noção de espaço geográfico elaborada por Milton SANTOS (1996), permitindo transpor as características do primeiro para a reflexão sobre este espaço que SANTOS convida o geógrafo a estudar . Segundo Lévy, o “espaço antropológico” é “um sistema de proximidade (espaço) próprio ao mundo humano (antropológico) e logo dependente de técnicas, significações, linguagem, cultura, convenções, representações e emoções humanas”. Tendo em vista esta dependência de elementos endógenos ao próprio espaço antropológico, e, portanto, à exaltação da vida que nele se manifesta, o espaço antropológico se constitui segundo planos de existência que se entremeiam: o espaço da terra, o espaço do território, o espaço das mercadorias e o espaço do saber.

O espaço antropológico de Lévy, assim como o espaço geográfico de SANTOS, reconhecem e afirmam o sentido da vida na sua constituição, na medida que vêem nas interações entre a vida dos seres humanos e seu meio físico e propriamente humano, a matriz na qual se produzem, se transformam e se geram continuamente espaços antropológicos ou geográficos, heterogêneos porém entrelaçados ou entremeados. Estes espaços plásticos, que se tecem mutuamente em suas interações, compreendem, por sua vez, signos que os sustentam, representações que os evocam, pessoas que os conduzem, e toda a situação em seu conjunto, tal qual é produzida e reproduzida nos atos-fatos realizados por seus integrantes.

Parafraseando Milton SANTOS (1996), a proposição de Lévy poderia ser a seguinte: os espaços vividos se movimentam e se conformam ao redor de objetos e ações que eles mesmos compõem e organizam, ao mesmo tempo, que são por estes objetos e ações também compostos e organizados. Visto por outro ângulo, os indivíduos vivos tramam espaços, pela composição e troca de imagens, palavras, conceitos e coisas, impondo uma certa estrutura, segundo a intensidade afetiva ou de vida, engajada neste processo. Resultam assim espaços diferenciados, efêmeros ou duráveis, formais ou informais, institucionais ou não.

Para Lévy, reconhece-se a importância de um evento qualquer, na ordem intelectual, técnica, social, histórica ou geográfica, por sua capacidade de reorganizar as proximidades e as distancias em um espaço, ou seja, por seu poder de instaurar novos espaços-tempo ou novos sistemas de proximidade. Em virtude de alguns eventos maiores na civilização ocidental, em particular na modernidade, se constituíram de forma acelerada diferentes espaços antropológicos. Passamos a viver em uma multiplicidade de espaços diferentes, cada um com seu sistema de proximidade particular (temporal, geográfico, afetivo, linguístico, etc.). De tal forma que uma entidade qualquer pode estar próxima de nós em um espaço, e bem longe em outro. O fato é que cada espaço, mesmo interpenetrado por outros, guarda ainda sua topologia e sua axiologia, ou seu sistema de valores ou de medidas, particular.

Os espaços emergem do interior da relação da vida humana com o seu meio, como mundos vivos, e são continuamente engendrados pelos processos e interações que se desenvolvem dentro desta relação fundamental. Eles parecem se desenvolver de forma irreversível, ganhando consistência e autonomia e se tecendo mutuamente. Entretanto eles não devem ser entendidos como estratos de infra ou de superestruturas, que se determinam mecanicamente ou que se interagem dialeticamente. Cada espaço é um plano de existência da vida, onde se identificam frequências e velocidades, ou seja, ritmos determinados.

Pierre Lévy, como vimos, identifica quatro espaços antropológicos, ou melhor, quatro planos de existência no espaço antropológico, constituídos em sucessão, desde a aurora da humanidade: Terra, Território, Mercado e Saber. Preferimos intitular os dois últimos de maneira diferente, qualificando-os de acordo com sua própria essência, como os dois primeiros o foram. Assim sendo teríamos: o espaço da terra, o espaço do território, o espaço das transações, e o espaço cibernético ou o ciberespaço. Lévy entende que cada espaço deve ser caracterizado por certos aspectos significativos , alguns dos quais são mencionados na sucinta descrição de cada espaço, que se segue.

O espaço da terra, como primeiro grande espaço de significação, aberto por nossa espécie, repousa sobre três pilares: linguagem, técnica e formas complexas de organização social. A ideia de cosmo, e de uma relação ordenada de todos os seres, tendo por base a terra que vivemos sob nossos pés, fundamenta este primeiro espaço, do imaginário ao prático. Por conseguinte, os modos de conhecimento no espaço da terra se expressam como mitos e ritos, a partir da identidade do ser humano dentro de uma cosmologia, que lhe outorga um sentido enquanto indivíduo e também enquanto parte de um todo.

O espaço do território se institui e se constitui com a agricultura, a cidade, o Estado e a escrita; recobre progressivamente o espaço da terra, embora ainda de forma parcial, ao qual submete e domestica, pelo processo de sedentarização da humanidade. A propriedade, a posse da terra e sua exploração, são privilegiadas, ao mesmo tempo que os modos de conhecimento deixam de lado o oral e passam a se fundamentar no desenvolvimento da escrita. Como tal se caracteriza pelo inicio da história e dos saberes de tipo sistemático e teórico. A existência humana articula-se assim na ligação a uma entidade territorial (pertença, propriedade, etc.), definida por seus limites, suas fronteiras, outorgando às instituições sob as quais vivemos, de certa maneira, uma territorialidade, nem que seja normativa, pela imposição de hierarquias, burocracias, sistemas de regras, lógicas de pertinência e de exclusão.

O espaço das transações, pari passu com a fundação do espaço territorial, ganhou sua impulso maior com os descobrimentos, sendo seu princípio organizador as redes e os fluxos de qualquer espécie, sobre as mesmas, tais como: matérias primas, energias, mercadorias, capitais, mão de obra, informações, etc. Por sua própria natureza, o processo de constituição do espaço das transações subverte e subordina o espaço territorial. Começa assim a desterritorialização, ou melhor, uma incessante des/re-territorialização. O espaço das transações motoriza e recobre de velocidade os espaço anteriores segundo VIRILIO (1993).

A riqueza não vem mais apenas do domínio dentro de fronteiras, mas do controle dos fluxos que permeiam o território. A identidade do ser humano no espaço das transações é auferida pela participação no processo produtivo e nos serviços associados às trocas econômicas, na condição de ocupação de uma posição nos nós das redes de fabricação, de transação, de comunicação; em resumo, trata-se de uma identidade artificial, definida por um posto de trabalho. Lévy lembra inclusive que no curriculum-vitae cada pessoa indica esta combinação de planos de existência terrestre, territorial e transacional, no espaço geográfico, ao se apresentar citando: seu nome (identidade terrestre da pessoa), seu endereço (sua identidade territorial) e sua profissão (sua identidade na espaço transacional).

Por último, se constitui a trama do espaço cibernético que vem se imiscuindo de forma acelerada, por entre os demais espaços, beneficiando, a principio, apenas um pequeno estrato social, a elite dos “bem sucedidos” nos espaços territorial e transacional. Constituído pela inserção estratégica de tecnologias da informação e da comunicação no espaço das transações, tecnologias originalmente concebidas e voltadas para o exercício das funções de armazenamento, controle, e transmissão de dados, o ciberespaço começa a oferecer aqui e ali, acesso a um novo espaço antropológico, maciçamente promovido como indispensável à comunicação e ao saber, e até mesmo à vida.

Tocando, localmente, cada indivíduo e traçando inúmeros caminhos, diretos e inversos, do local ao global, nossas redes, tecnológicas, tendem, portanto, pouco a pouco, a substituir as antigas grandes instancias ou instituições encarregadas do global, Estados, Direitos, Igrejas, Bancos e Bolsas, Escolas e Universidades. (...)

Donde sua capacidade de destruir ou substituir, para o pior ou o melhor, o político, o religioso, o direito, a cultura e o saber; as relações de violência e de força; o comercio e o dinheiro; três instancias encarregadas, desde a aurora da história, de fazer aparecer e forjar o liame social. (SERRES, 1994, p. 203-204)



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